Quem passa hoje pelo centro de Atibaia e vê o sobrado branco do Casarão Júlia Ferraz dificilmente imagina que, em 1961, ele esteve marcado para morrer. As autoridades locais queriam derrubá-lo para ampliar a praça. A última moradora, Júlia Ferraz, já idosa, foi obrigada a deixar a casa. O prédio só continua de pé porque uma sobrinha dela decidiu brigar.
Essa é a parte mais conhecida da história. Mas o casarão tem cerca de 250 anos de outras histórias antes e depois dela.
Uma casa térrea de taipa de pilão
A trajetória do solar, segundo o histórico mantido pela associação que hoje cuida dele, começa em 1776, quando o português Francisco Lourenço Cintra se estabeleceu em Atibaia. Pela tradição familiar, ele foi o primeiro morador. Naquela época, a construção era uma casa térrea, de taipa de pilão, a técnica de compactar terra entre formas de madeira que ergueu boa parte das casas paulistas do período colonial.
O sobrado que se vê hoje veio depois. Entre 1834 e 1845, o coronel Manoel Jorge Ferraz construiu o andar de cima, desta vez com estrutura de madeira preenchida com taipa de mão, o pau a pique. O resultado é uma casa que guarda, numa mesma fachada, duas técnicas construtivas e dois séculos diferentes.
Por causa dele, o imóvel também é conhecido como Solar do Coronel Manoel Jorge Ferraz.
Política, religião e abrigo
No século XIX, o casarão foi sede do Partido Liberal em Atibaia. Ali se faziam reuniões políticas, e o histórico da associação registra que o sobrado recebeu inclusive participantes da Revolução Liberal de 1842, levante paulista e mineiro contra o governo imperial.
O filho do coronel, Manoel Jacintho de Araújo Ferraz, formou-se em direito em São Paulo e foi juiz em toda a região bragantina. Também foi deputado e presidente da Câmara de Vereadores de Atibaia, num tempo em que a Câmara funcionava na antiga Casa de Câmara e Cadeia, hoje o Museu Municipal João Batista Conti.
Em 1901 a casa passou para os netos e netas de Manoel Jorge. A família se dedicou a atividades artísticas e religiosas e costumava hospedar autoridades da Igreja, como o arcebispo de São Paulo dom Duarte Leopoldo e Silva e dom Antônio Mariano de Assis. Em 1924, durante a revolução que tomou a capital paulista, os Ferraz abriram as portas para famílias que fugiam de São Paulo.
1961: a ordem de demolição
Júlia Ferraz foi a última moradora. Quando as autoridades decidiram demolir o prédio para ampliar a praça, ela teve de sair. Foi aí que entrou em cena Maria de Lourdes Ferraz, sobrinha de Júlia, que começou uma campanha junto ao Condephaat, o conselho estadual de patrimônio, para impedir a demolição.
Deu certo. Em 1975, o tombamento reconheceu oficialmente a importância histórica, arquitetônica e política do casarão para o estado de São Paulo.
Lourdes não se limitou a salvar as paredes. Depois do tombamento, transformou o sobrado num espaço de cultura popular, com um trabalho pioneiro de promoção do artesanato que abriu a casa para artesãos e artistas da cidade e da região. Vieram exposições de arte, mostras de cultura popular e apresentações musicais. Entre 2006 e 2008, o casarão sediou três edições do Festival de Inverno de Atibaia, com tributos a Noite Ilustrada, Altemar Dutra e Silvio Caldas, além do projeto Clube da Música, com artistas locais.
Rachaduras, escoras e uma vaquinha
A ameaça seguinte não veio de uma ordem de demolição, mas do chão. Entre 2012 e 2013, depois de anos de reforma na praça do entorno, começaram a aparecer problemas na estrutura do casarão.
Em 2012 havia sido criada a Associação dos Proprietários e Amigos do Solar do Coronel Manoel Jorge Ferraz, a AsPAS, para dar continuidade ao trabalho cultural e cuidar do prédio. Foi ela que puxou a mobilização. Em 2014, a Secretaria de Cultura do Estado fez o escoramento preventivo. No mesmo ano, a associação bancou o projeto de estabilização com uma campanha de financiamento coletivo chamada "Salve o Casarão", aprovou o projeto no Condephaat e foi selecionada no edital do Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos.
A foto que abre esta reportagem é desse período: a fachada aparece protegida por tapume e sustentada por escoras. Entre 2020 e 2021, a associação executou os serviços emergenciais de estabilização estrutural previstos no projeto. Enquanto isso, manteve atividades culturais e de educação patrimonial, como o projeto Jardim do Solar, e teve o trabalho reconhecido como Ponto de Cultura nos níveis federal e estadual.
Como visitar
O casarão fica no centro histórico, perto da Igreja Matriz de São João Batista. Por ser um imóvel em processo de recuperação e gerido por uma associação, a abertura ao público depende da programação. Antes de ir, vale conferir as redes sociais do casarão ou escrever para a associação pelo e-mail publicado no site oficial.
Mesmo por fora, a visita vale a pena para quem gosta de arquitetura. Repare na diferença entre o térreo e o pavimento superior e pense que entre um e outro passaram quase sessenta anos.
Perguntas frequentes
Quem foi Júlia Ferraz?
Integrante da família Ferraz, foi a última moradora do casarão. Já idosa, teve de sair em 1961, quando as autoridades locais planejavam a demolição.
O casarão é tombado?
Sim. O tombamento estadual pelo Condephaat foi oficializado em 1975.
Quem cuida do casarão hoje?
A Associação dos Proprietários e Amigos do Solar do Coronel Manoel Jorge Ferraz, a AsPAS, fundada em 2012.
Continue pelo centro
O casarão é parada natural de um passeio a pé pelo Centro Histórico de Atibaia, que inclui a Matriz, o museu e a Igreja do Rosário. Se você restaura móveis ou procura peças de época, dê uma olhada na busca do AtiPerto e nos anúncios da cidade de Atibaia.
Foto de capa: Daniel Guedes F. Dionizio / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.