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Igreja do Rosário, em Atibaia: o templo dos escravizados que guarda o Ciclo Natalino

Proibidos de rezar na Matriz, os negros escravizados de Atibaia ergueram a própria igreja no século XVIII. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos é hoje o palco dos mastros, da cavalhada e das congadas entre o Natal e o Dia de Reis.

Por · Publicado em · 5 min de leitura

Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Praça Guilherme Gonçalves, em Atibaia. Foto: Sintegrity / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Praça Guilherme Gonçalves, em Atibaia. Foto: Sintegrity / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A poucas quadras da Matriz, numa praça arborizada do centro de Atibaia, uma igreja branca de duas torres conta uma história que a cidade levou tempo para contar em voz alta. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, ou simplesmente Igreja do Rosário, nasceu porque os negros escravizados não tinham permissão para rezar na igreja principal. Sem lugar na Matriz, construíram o próprio templo.

Mais de 250 anos depois, ela é o endereço da festa mais característica de Atibaia: o Ciclo Natalino, com mastros, cavalhada e as congadas que tomam a praça entre o Natal e o Dia de Reis.

Uma igreja feita por quem não podia entrar na outra

Os registros reunidos por Lilian Vogel, gerente de Folclore e Cultura Popular da prefeitura e autora de um livro sobre o tema, apontam que a igreja ficou pronta na segunda metade do século XVIII. As datas citadas variam conforme o texto: um fala em 1763, outro em "por volta de 1776". Ela surgiu como protetora das classes mais humildes, numa época em que a Matriz de São João Batista era, na prática, a igreja dos brancos.

Esse tipo de templo existe em várias cidades brasileiras de origem colonial. As irmandades do Rosário dos Homens Pretos eram uma das poucas formas de organização permitidas à população negra, escravizada ou liberta. Em torno delas se mantinham a devoção, o auxílio mútuo e as festas, e foi justamente nessas festas que tradições como a congada atravessaram os séculos.

Reformas, abandono e recuperação

A Igreja do Rosário passou por períodos de abandono. Cada recuperação dependeu da comunidade católica e dos padres, que juntaram dinheiro com festas, rifas, quermesses e doações.

  • 1914: a igreja tinha uma única torre, e ela ameaçava ruir. A reforma começou naquele ano.
  • 1954: nova restauração, tocada por uma comissão de moradores incentivada pelo padre Feliciano Grande.
  • 2002: o padre Eugênio Luiz Berti conseguiu recursos públicos e doações para obras na estrutura, no telhado, nas paredes, nos altares e na decoração interna.

Na intervenção de 2002, a calçada da frente foi ampliada para que os grupos de congada pudessem se apresentar com mais espaço diante da igreja. Foi também nessa época que se criou o Museu do Escravo, ligado à igreja, dedicado à memória da população escravizada da cidade.

Quem olha a fachada hoje vê duas torres, frontão trabalhado e detalhes pintados em amarelo sobre o branco, bem diferente do templo de uma torre só que preocupava os fiéis em 1914.

O Ciclo Natalino: o calendário da Igreja do Rosário

A igreja ganha vida de verdade no fim do ano. É nela que acontecem as festividades do Ciclo Natalino, que seguem um roteiro tradicional:

  • 25 de dezembro: levantamento dos mastros de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito;
  • 26 de dezembro: bênção da cavalhada;
  • 27 e 28 de dezembro: cortejos, missas, procissões e o reinado, celebrando Nossa Senhora do Rosário e São Benedito;
  • início de janeiro, perto do Dia de Reis: descida dos mastros, que encerra o ciclo.

Todas essas cerimônias são conduzidas pelos grupos de congada da cidade, que segundo a mesma fonte têm mais de 260 anos de existência. O dia 28 de dezembro, dedicado a São Benedito, é um dos mais concorridos. Para entender quem são os ternos, de onde vêm e por que usam cores diferentes, leia a reportagem sobre as congadas de Atibaia.

Como visitar

A igreja fica na Praça Guilherme Gonçalves, no centro, a uma caminhada curta da Matriz. Por ser igreja em funcionamento, os horários de abertura variam; o mais seguro é se informar na paróquia ou na Secretaria de Turismo, na Avenida dos Bandeirantes, 227, antes de ir. O mesmo vale para o Museu do Escravo, cujas datas de abertura não encontramos publicadas em fonte oficial atualizada.

Fora do Ciclo Natalino, a praça é tranquila, boa para ver a fachada com calma e para fotografar, especialmente no fim da tarde e à noite, quando a iluminação destaca as torres. No período entre Natal e Reis, ao contrário, o movimento é grande, e quem quer ver o levantamento dos mastros ou o reinado de São Benedito precisa chegar cedo.

Algumas dicas de quem vai à festa:

  • confirme a programação do ano com a prefeitura, já que horários de cortejos e missas mudam;
  • respeite o espaço dos congadeiros, que estão em ato religioso e não em show;
  • se for fotografar de perto, pergunte antes;
  • vá a pé, porque as ruas do entorno ficam fechadas ou congestionadas.

Perguntas frequentes

Por que a igreja se chama "dos Homens Pretos"?

Porque foi construída pela população negra escravizada, que não podia frequentar a Matriz. O nome é comum às igrejas do Rosário erguidas por irmandades negras no Brasil colonial.

Quando é a principal festa?

No Ciclo Natalino, de 25 de dezembro ao início de janeiro, com destaque para os dias 27 e 28 de dezembro.

Onde saber mais sobre essa história?

A pesquisadora Lilian Vogel reuniu a história da igreja e do Ciclo Natalino no livro "Viva São Benedito! Viva a Mãe do Rosário".

Siga o roteiro

Do Rosário, vale caminhar até a Igreja Matriz de São João Batista e ao Museu Municipal João Batista Conti, que guarda parte da história da cidade, ou fazer o roteiro completo do Centro Histórico de Atibaia. Para quem mora na cidade, vale também espiar o que está anunciado no centro na página de Atibaia do AtiPerto.

Foto de capa: Sintegrity / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Fontes consultadas

Redação AtiPerto · Equipe editorial

Equipe editorial do AtiPerto. Escrevemos guias de compra, venda e vida local em Atibaia e região, com base em pesquisa pública, anúncios do próprio marketplace e fontes citadas em cada texto.

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